Por Antônio Bernardino
*Esse review foi postado primeiramente no site da DarkMode.com.br do meu querido amigo, Dewindson Costa
Alguns álbuns carregam expectativa. Outros carregam história. Buried Blue, do For My Pain…, carrega ambas.
Quando a banda anunciou seu retorno em 2023, a notícia soou como uma surpresa que talvez nem os fãs mais esperançosos acreditassem que ainda pudesse acontecer. Afinal, trata-se de uma verdadeira super banda, formada por músicos ligados a nomes como Reflexion, Charon, Eternal Tears of Sorrow e Nightwish.
O retorno, no entanto, não veio sem mudanças. Petri Sankala e Tuomas Holopainen não seguiram na nova fase do grupo, e a responsabilidade de assumir seus postos ficou com Marco Sneck (Poisonblack) nos teclados e Ari-Matti Pohjola (Reflexion) na bateria. Uma missão nada simples, considerando o peso histórico envolvido.
Desde então, a banda voltou aos palcos, apresentou novos singles e consolidou de vez esse reencontro com o lançamento de Buried Blue, em 9 de janeiro de 2026 - um trabalho que carrega a difícil missão de dialogar com o legado de Fallen sem se limitar a ele.
O que se encontra aqui não é apenas nostalgia, mas uma evolução consciente: um álbum que respeita a própria identidade enquanto se permite respirar novos ares.
Hungry For Desire
Esta faixa tem as guitarras são mais pesadas, com pegada mais direta, e o ritmo traz algo ligeiramente distinto do que a banda costumava apresentar.
Em alguns momentos, a música chega a me lembrar o Reflexion (Juha Kylamanen e Ari-Matti Pohjola são membros). Existe uma aproximação nessa atmosfera mais intensa e levemente diferente do padrão mais clássico do For My Pain…, ainda que ambas mantenham essa base "Gothic".
Funciona como uma abertura forte e mostra uma nova face, sem abandonar a identidade construída nos anos 2000, mas apresentando um som que dialoga com esse reencontro da banda.
Windows Are Weeping (feat. Troy Donockley)
Em seguida, “Windows Are Weeping” segue essa linha de renovação já apresentada na faixa anterior, mas vai ainda além. Se “Hungry For Desire” já trazia uma diferença em relação ao passado da banda, aqui essa sensação de novidade se torna ainda mais evidente.
A participação de Troy Donockley (Nightwish) cria um diálogo sutil dentro da música, principalmente pela inserção desse elemento mais folk, que altera a atmosfera da faixa e amplia o campo sonoro da banda. É uma abordagem diferente, inclusive pela própria concepção da música, que parece ter sido pensada para explorar essa textura mais orgânica.
Ainda assim, mesmo com essa proposta distinta, a faixa mantém aquele caráter atmosférico, gótico e melancólico que sempre foi a essência da banda. Ou seja, é algo novo, mas que não rompe com a identidade da banda - apenas a expande.
WitchBitch Elite
“WitchBitch Elite” é, para mim, um "goth rock" de primeira qualidade. É uma faixa envolvente, provocante e extremamente bem construída dentro dessa proposta mais direta e sedutora.
Um dos grandes destaques está no trabalho instrumental, especialmente no diálogo entre o solo de guitarra e o solo de teclado de Marco Sneck. Aqui eu admito que sou até um pouco suspeito para falar - considero-o um dos grandes nomes nesse tipo de sonoridade, e mais uma vez ele mostra o quanto acrescenta à identidade da banda.
É uma das faixas que mais se destacam no álbum, mesmo considerando que o disco, como um todo, mantém um nível muito bom.
Child of the Fallen
“Child of the Fallen” é uma das composições mais densas do álbum, marcada por uma melancolia intensa do começo ao fim. Há uma densidade emocional constante na música, que sustenta essa atmosfera mais sombria sem perder força.
O instrumental é muito bem construído, reforçando essa sensação de peso e introspecção. A voz de Juha Kylmänen aparece bastante carregada, no melhor sentido da palavra — com um manejo muito seguro e totalmente alinhado com a atmosfera que a música pede. Há uma sintonia clara entre interpretação e ambientação.
A letra também segue essa linha mais sombria, contribuindo para tornar a faixa ainda mais envolvente dentro do contexto do álbum.
Gone Tomorrow
“Gone Tomorrow” me remete muito a “Broken Days”, do álbum Fallen. É uma faixa que resgata com força os primórdios do For My Pain…, principalmente nessa condução mais atmosférica/ melancólica.
Existe uma intensidade emocional semelhante à de “Child of the Fallen”, mas, para mim, a referência mais clara continua sendo “Broken Days”. É uma música bastante sentida, que conversa diretamente com a essência inicial da banda.
O instrumental se mantém muito bem construído, sustentando essa atmosfera com equilíbrio. Uma faixa forte, especialmente para quem tem ligação com a fase inicial do grupo.
Time Will Heal Our Wounds
“Time Will Heal Our Wounds” carrega uma história particular dentro da trajetória da banda. Segundo minhas apurações, a música foi apresentada ainda em 2005, no festival Jalometalli, pouco antes do hiato do For My Pain…, mas nunca havia sido oficialmente gravada em estúdio. Ou seja, sua presença aqui representa uma espécie de resgate - quase vinte anos depois, a faixa finalmente ganha uma versão definitiva.
E isso é algo que se sente na audição. A música preserva completamente a essência do antigo For My Pain…, mas ao mesmo tempo se encaixa de forma natural nesse novo momento da banda. Há um equilíbrio interessante entre passado e presente.
O instrumental é muito bem trabalhado, com destaque especial para o solo de teclado, que é simplesmente impecável. As guitarras sustentam muito bem a atmosfera, e a letra também contribui para reforçar essa identidade mais melancólica e introspectiva que sempre marcou o grupo.
É uma faixa muito forte dentro do álbum, especialmente pelo peso histórico que carrega.
Tether
O grande destaque de “Tether” está justamente na participação de Riina. A música segue em formato de dueto, criando um diálogo que traz uma dinâmica diferente para o álbum.
Há uma leveza maior na construção da faixa, e isso faz com que ela se torne muito agradável de ouvir - é uma música que soa bem aos ouvidos, principalmente pela combinação das vozes e pela atmosfera mais delicada que se forma a partir dessa parceria.
Isle of Solitude
“Isle of Solitude” retorna a uma abordagem mais próxima das raízes da banda, com uma sonoridade que resgata esse lado mais pesado dentro da proposta do For My Pain….
A letra segue essa linha já conhecida do grupo, com uma carga emocional intensa - quase catastrófica em alguns momentos - mantendo aquela identidade lírica que sempre marcou a banda.
É uma faixa sólida dentro do álbum, com uma pegada que dialoga diretamente com o que o For My Pain… construiu no passado. Assim como em “Tether”, não é uma música que me desperta tantas camadas de comentário, mas cumpre bem seu papel dentro do conjunto do disco.
Recoil Into Darkness
“Recoil Into Darkness”, na minha opinião, é a melhor faixa do álbum. É a música que melhor sintetiza tudo o que o Buried Blue representa: o diálogo entre o passado e o presente do For My Pain….
A faixa consegue unir com naturalidade essa nova pegada da banda com a essência do período do Fallen. Existe um equilíbrio muito bem construído entre nostalgia e renovação, e tudo nela parece funcionar de maneira orgânica.
A participação de Miriam Henvarg Müller — que também esteve presente no Fallen — reforça ainda mais essa ponte entre as duas fases. O instrumental é marcante, a atmosfera é intensa e a letra acompanha essa força emocional. O refrão, em especial, é lindíssimo — daqueles que realmente ficam na mente e carregam a emoção da música com muita força.
É uma composição em que tudo se encaixa: arranjos, interpretação, construção melódica. Dentro do conjunto do álbum, é a faixa que mais se destaca e que melhor representa o momento atual da banda.
Black Calla Lilies
“Black Calla Lilies” segue uma linha próxima à de “Isle of Solitude”, apostando em uma atmosfera mais intensa e densa, com esse clima gothic atmospheric que em alguns momentos se aproxima de uma sensibilidade mais voltada ao doom.
É uma faixa que reforça o lado mais sombrio e introspectivo do álbum, mantendo a identidade clássica do For My Pain…. Funciona bem dentro do conjunto do disco, mesmo sem ser uma das que mais se destacam individualmente.
Burnt-Out Sun
“Burnt-Out Sun” encerra o álbum de forma muito consistente. É uma faixa que carrega essa atmosfera mais densa, com uma construção que se desenvolve de maneira quase épica, conduzindo o ouvinte para um fechamento à altura do disco.
Aqui faço um destaque especial para a bateria de Ari-Matti Pohjola, que tem um papel fundamental na condução da música. A performance traz força e sustentação à faixa, reforçando o peso emocional do encerramento.
O refrão é muito bom - marcante e intenso - e carrega essa sensação de escuridão e esgotamento emocional que fecha o Buried Blue de maneira realmente impactante.
Considerações Finais
No geral, Buried Blue é um álbum impecável. Um trabalho extremamente bem construído, que realiza uma transição natural entre o passado e o presente do For My Pain…
Há renovação, há nostalgia - mas, acima de tudo, há identidade.
Cada músico encontra seu espaço, reforçando o peso de uma verdadeira super banda. Riffs marcantes, vocais seguros, teclados atmosféricos e uma base instrumental sólida sustentam um disco coeso e envolvente do início ao fim.
Para mim, é nota 10 de 10.
Lançado em janeiro, Buried Blue já surge como um forte candidato a figurar entre os melhores álbuns do ano no Headbangers Land.

